39 anos sem Padre Josimo: um crime político que ainda ecoa no campo brasileiro

39 anos sem Padre Josimo: um crime político que ainda ecoa no campo brasileiro

Quase quatro décadas depois, a violência no campo persiste com novas formas de ataque e a mesma impunidade.

Foto: Brasil de Fato

Na manhã de 10 de maio de 1986, véspera do Dia das Mães, o padre Josimo Morais Tavares, de 33 anos, foi assassinado com dois tiros pelas costas ao subir a escadaria da Comissão Pastoral da Terra (CPT), em Imperatriz (MA). O crime foi encomendado por um fazendeiro e vereador da região, com a execução realizada por um pistoleiro contratado, que recebeu uma quantia pela morte do padre.

Coordenador da CPT na região do Bico do Papagaio — área de intensos conflitos fundiários entre o sul do Maranhão e o norte do atual Tocantins —, Josimo atuava na denúncia de grilagens, organização de trabalhadores rurais e enfrentamento à concentração fundiária.

A comoção popular após o assassinato levou cerca de 3 mil pessoas ao velório. Estavam presentes o então ministro da Reforma Agrária, Nelson Ribeiro, e o diretor da Polícia Federal, Romeu Tuma, que prometeram justiça. O pistoleiro foi condenado em 1988, mas fugiu diversas vezes. O mandante só foi preso em 2001 e condenado dois anos depois. A lentidão da Justiça reflete o padrão de impunidade que marca os crimes no campo brasileiro.

Josimo, chamado de “o padre negro de sandálias surradas” pelos agricultores da região, viveu sob constantes ameaças. Sua escolha por voltar à terra natal, Xambioá, e dedicar sua vida aos camponeses foi um gesto de entrega radical ao Evangelho e ao povo. Sua morte não interrompeu a luta. Hoje, seu nome está presente em assentamentos, escolas, ruas, comunidades de base e movimentos populares. Sua memória vive como símbolo de resistência.

Maranhão: onde a terra ainda é marcada por sangue

Quase quatro décadas depois, os mesmos fatores que levaram à morte de Padre Josimo continuam estruturando a lógica fundiária do Brasil — e, particularmente, do Maranhão. Em 2024, segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o estado liderou os casos de contaminação por agrotóxicos relacionados a conflitos rurais, com 228 ocorrências das 276 registradas no país — mais de 80% do total.

O relatório também apontou que os incêndios em áreas de disputa agrária dobraram (de 91 para 194), enquanto os casos de desmatamento ilegal passaram de 150 para 209. A Amazônia Legal, onde se encontra o Maranhão, segue como principal vítima dessa destruição. Mato Grosso e Pará concentram os maiores percentuais de queimadas e desmatamento, mas o Maranhão se destaca pelo volume de intoxicações — uma prática que se tornou arma política e instrumento de expulsão. O uso de agrotóxicos na região tem atingido lavouras, casas e até escolas, impondo um medo crescente e provocando a expulsão silenciosa de comunidades inteiras.

As principais vítimas dessa violência são, em sua maioria, povos indígenas (29%), posseiros (25%), quilombolas (13%) e integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (11%). Os agressores, por sua vez, são em grande parte fazendeiros (44%), empresários (15%) e até agentes do Estado (8%) — o que evidencia o conluio entre interesses privados e estruturas públicas.

Entre setembro e dezembro de 2023, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) registrou 30 ataques a defensores de direitos humanos no Brasil, com 10 assassinatos confirmados. A violência política no campo segue como estratégia deliberada de silenciamento. A atuação dos defensores e defensoras de direitos humanos, especialmente no meio rural, representa um risco real à lógica de concentração de terra e poder. Por isso, são alvos constantes de ameaças, perseguições, criminalização e assassinatos. A impunidade dos agressores alimenta a continuidade desse ciclo brutal de violência e medo.

O legado de Padre Josimo

Sua morte não foi em vão. Padre Josimo tornou-se um marco na luta por justiça no campo e nos movimentos sociais no Brasil. Fazer memória de Padre Josimo não é apenas recordar sua morte, mas destacar as lutas que ainda hoje enfrentam camponeses, indígenas, quilombolas, sem-terra e defensores de direitos humanos.

A Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) segue realizando ações de proteção, formação e denúncia em defesa das populações ameaçadas. Enquanto a terra for tratada como mercadoria, e não como bem comum, o nome de Josimo Morais Tavares continuará a ecoar em cada luta por justiça social, reforma agrária e direitos humanos no Brasil.

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