
A palavra “lésbica” carrega uma história que remete à ilha de Lesbos e à poetisa Safo, uma das primeiras a falar sobre o amor entre mulheres, um sentimento que, desde então, desafia normas e expectativas sociais. Amar mulheres sempre foi, e continua sendo, uma forma de resistência, marcada por lutas históricas por reconhecimento, espaço e direitos. É por essa trajetória que agosto se tornou o mês da visibilidade lésbica, reunindo datas que celebram e lembram a luta das mulheres que amam mulheres no país.
No dia 19, comemora-se o Dia do Orgulho Lésbico, em memória à ocupação do Ferro’s Bar, em São Paulo, em 1983. Liderado por Rosely Roth e outras ativistas, o ato, conhecido como “Operação Sapatão”, denunciava a repressão à circulação do jornal Chanacomchana e permanece como marco da resistência coletiva. No dia 29 de agosto, celebra-se o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica, em referência ao 1º Seminário Nacional de Lésbicas (SENALE), realizado em 1996, no Rio de Janeiro. Desde então, a data tornou-se símbolo da luta por direitos, reconhecimento e enfrentamento da violência.
Durante a Ditadura Militar (1964–1985), mulheres lésbicas foram alvo de censura e perseguição. Escritoras como Cassandra Rios tiveram suas obras proibidas, e bares e espaços de convivência eram reprimidos sob a justificativa de “vadiagem”. Esse passado evidencia como o Estado atuou para invisibilizar mulheres que amavam mulheres, limitando sua presença social e cultural.
Violência e invisibilidade
As datas de agosto são fundamentais para disputar narrativas em uma realidade que ainda persiste. O Brasil é um dos países que mais mata pessoas LGBTQIA+. O Dossiê Lesbocídio (UFRJ, 2018) registrou 126 assassinatos de mulheres lésbicas entre 2014 e 2017, 83% cometidos por homens. O LesboCenso (2022) revelou que 78% das entrevistadas já sofreram violência ou assédio. Em 2017, quase 2.400 lésbicas foram vítimas de estupro, na maioria dos casos dentro de casa, com 96% dos agressores sendo homens.
Esses dados mostram que a lesbofobia é estrutural, atravessa diferentes espaços e se manifesta em práticas como o “estupro corretivo”, que busca punir mulheres por sua orientação sexual. Seus efeitos se combinam com outras formas de opressão: mulheres negras, indígenas, periféricas ou com menos recursos enfrentam níveis ainda maiores de violência e exclusão. A discriminação é, portanto, interseccional, envolvendo gênero, raça, classe e orientação sexual.
E essa violência não está distante, ela atravessa a vida de mulheres lésbicas aqui no Maranhão. Em dezembro de 2023, Carol Campelo, jovem de 21 anos, foi vítima de lesbocídio no município de Maranhãozinho. Seu assassinato, cujo julgamento está marcado para 5 de novembro deste ano, tornou-se símbolo de denúncia e de mobilização. Grupos em todo o país se mantêm unidos em torno da memória de Carol, exigindo justiça.
Organização coletiva e resistência
Apesar das violências, a resistência sempre esteve presente. Coletivos e grupos produziram boletins, jornais e encontros que pavimentaram caminhos para o reconhecimento atual. Em 2019, o STF equiparou a homofobia e a transfobia ao crime de racismo, um avanço importante, mas que mostra que a luta vai além das instituições.
A força das redes lésbicas, coletivos e amizades se manifesta na ação cotidiana, no apoio mútuo, na troca de experiências e na criação de referências para quem se reconhece ou enfrenta violência, preconceito e isolamento. Para pessoas LGBTQIA+, essa coletividade molda a construção da identidade, fortalecendo confiança e senso de pertencimento. A partir desse reconhecimento de si mesma, ser lésbica se transforma em orgulho e fonte de força.
Agosto, portanto, é memória e perspectiva de futuros melhores. Celebrar o Orgulho e a Visibilidade Lésbica é lembrar que mulheres amando mulheres no Brasil continua sendo ato de coragem. A luta exige reconhecimento individual, público e coletivo. Isso significa apoiar coletivos, dar visibilidade à produção cultural e acadêmica de mulheres lésbicas, valorizar suas trajetórias e cobrar políticas públicas que respeitem a diversidade de experiências.
No Maranhão e em todo o país, a presença lésbica em movimentos sociais, conselhos e coletivos tem sido decisiva para pautar temas como saúde, educação e segurança. Sem essa incidência, os debates seriam ainda mais restritos. Agosto reafirma que visibilidade é também uma condição de cidadania. É na construção de redes de apoio, na valorização da identidade e no orgulho de existir como quem se é que a luta se fortalece. Porque não há democracia plena sem que todas as mulheres que amam mulheres possam existir em liberdade, com direito ao amor, à luta e ao reconhecimento.