Pré-Caravana Regional do Baixo Parnaíba reafirma a memória de Zé Nedina e fortalece a luta pela Reforma Agrária e Direitos Humanos em Araioses

Pré-Caravana Regional do Baixo Parnaíba reafirma a memória de Zé Nedina e fortalece a luta pela Reforma Agrária e Direitos Humanos em Araioses

A comunidade Santa Rosa, em Araioses, foi chão fértil para encontros, partilhas, denúncias e fortalecimento das lutas por terra e território e pelos direitos humanos. Entre os dias 3 e 7 de novembro, a Pré-Caravana Regional de Direitos Humanos, organizada pela SMDH, pelo Fórum em Defesa da Vida do Baixo Parnaíba Maranhense e pelo Coletivo de Caravaneiros(as), reuniu lideranças comunitárias, jovens, organizações parceiras e moradores de diversos territórios do Baixo Parnaíba.

 Santa Rosa recebeu a Pré-Caravana com força, memória e presença das comunidades.

Ali, onde a memória de Zé Nedina segue viva e necessária, a Pré-Caravana se firmou como movimento de cuidado político e alinhamento coletivo — preparando o terreno e lançando as sementes para a Caravana Anual de Direitos Humanos em dezembro, e, para a Caravana Regional, marcada para março de 2026, em Araioses.

Memória como denúncia e caminho político

 A memória de Zé Nedina pulsa como farol para as lutas atuais.

A primeira grande parada foi a Casa Memorial Zé Nedina, guardada com carinho pelas mulheres e lideranças locais. O Memorial faz parte de uma iniciativa do IFMA – Campus Araioses, como projeto de resgate da história e das lutas por terra.

Ali, os olhos que percorriam as paredes encontraram mais do que fotografias: encontraram continuidade. O memorial é lembrança, mas também direção. É afeto, mas também denúncia. É história sobre o passado, mas sobretudo um olhar para futuro, construído através do legado de quem veio antes.

O diálogo na Casa Memorial Zé Nedina reforçou a responsabilidade do Estado nas violações, conforme destacado por um dos participantes:

“Em 2014, quando Zé Nedina foi assassinado, fazia exatamente 30 anos de intervenção da SPU em Santa Rosa, sem que o processo tivesse sido regularizado ou concluído. Isso mostra como o estado também é responsável pelas situações de violações de Direitos Humanos, por conta da sua negligência.”

O encontro gerou encaminhamentos concretos com parceiros, como o convite ao IFMA para realizar projetos de manutenção do espaço e educação territorial, com vistas ao fortalecimento da Casa Memorial, além de serem abordadas outras possibilidades de parceria do instituto com a comunidade, na forma de projetos de extensão. 

A memória de Zé Nedina se coloca como base para a construção da Caravana Regional, que traz como tema o Projeto Político Popular com Direitos Humanos, Democracia e Bem Viver, entoando ainda o lema “Seguimos na luta pela Reforma Agrária e pelos Direitos Humanos. Zé Nedina, Presente!”

Intercambiar resistências

O intercâmbio entre comunidades tradicionais da região foi mais que uma atividade: foi um momento de partilha e fortalecimento coletivo, onde cada comunidade trouxe suas dores e estratégias de sobrevivência, como a denúncia sobre ameaças e processos de criminalização de lideranças, a luta contra a expropriação de territórios e estratégias de união e articulação entre comunidades para expulsar invasores e defender os territórios.

Participaram do encontro as comunidades Santa Rosa, Paramirim, Pau Ferrado, Baixão dos Loteros, Baixão da Subida, Mangabal e Baixa Grande do Meio, que além das denúncias, também fizeram seus anúncios, sobre a força do trabalho coletivo e da união entre as comunidades.

Outro ponto abordado, visualizado como uma ameaça à luta coletiva foi o avanço do Programa “Titula Brasil” nos municípios da região. O programa, foi observado pelas comunidades e organizações presentes como uma ação que enfraquece o elo coletivo e promove um fatiamento dos territórios, provocando uma maior vulnerabilidade das comunidades às investidas de invasores. 

Outro desafio observado, foi a falta de apoio às atividades de agroextrativismo da carnaúba em Santa Rosa. A comunidade realiza o manejo da carnaúba como principal fonte de renda, contudo, o maquinário para seu processamento é caro, e portanto, a comunidade depende de terceiros que possuem o maquinário, mas também ficam com boa parte do lucro. Foi refletida a importância de apoio do poder público para as atividades produtivas das comunidades, como forma de garantir a soberania alimentar e fortalecer a permanência nos territórios.

O intercâmbio foi um momento muito rico e deixou importantes aprendizados. Quando uma comunidade fala, todas aprendem. Quando todas falam juntas, a política muda de lugar.

Juventudes em movimento: educação, crítica e futuro

Durante a Pré-Caravana foi realizada, na comunidade Santa Rosa, uma sessão de Cine-Debate, com exibição do filme “Uma História de Amor e Fúria”. O público, que foi composto pelos(as) caravaneiros(as) e comunidade local, refletiu, a partir do filme, que os tempos mudam e o povo negro, indígena, de comunidades tradicionais, segue sendo perseguido e sofrendo inúmeras violências. Contudo, não sem lutar! Pois desde 1500, nosso segue resistindo e lutando pela vida e pelos territórios. A luta continua! 

Durante a programação, também houve mobilização nas escolas para o XII Prêmio de Produção Textual e Audiovisual “Rafael Estevão de Carvalho”, que está com inscrições abertas até 8 de março de 2026. O prêmio prevê premiação em dinheiro e publicação na Revista Catirina. Espera-se que os jovens das comunidades locais possam participar e trazer suas narrativas para essa construção que se volta para visibilizá-las.

Incidência Política e Luta por Direitos: Diálogo com o Sistema de Justiça e Reivindicações junto ao Poder Público

Enquanto aconteciam as atividades em Santa Rosa, outra frente dialogava com instituições do sistema de justiça e segurança pública. Conversas firmes, diretas, reivindicações antigas retomadas, em uma importante ação de incidência.

A SMDH realizou um encontro estratégico com os Promotores de Justiça da Comarca de Araioses, Samara Cristina Mesquita Pinheiro Caldas e John Derrick Barbosa Braúna. O diálogo tratou das ameaças contínuas a comunidades tradicionais e pescadores artesanais na região, abordando ainda a falta de acesso a políticas públicas para as comunidades.

Além disso, foram levantadas demandas junto às comunidades, para a proposição de diálogos junto aos órgãos responsáveis, com o objetivo de reivindicar ações do poder público. As principais reivindicações levantadas incluem a melhoria urgente no abastecimento de água, a recuperação de três pontes de acesso à comunidade que estão interditadas e o fortalecimento do agroextrativismo da carnaúba.

As pautas ligadas à segurança pública também integraram a programação da Pré-Caravana, sendo debatidas na Pré-Conferência de Segurança Pública. Foram abordadas pautas como o combate ao racismo, ao encarceramento, e à criminalização de lideranças de comunidades tradicionais em processo de luta por terra e território, que observam, também, um aumento da criminalidade nos territórios tradicionais. A atividade constituiu-se como uma preparação para a Conferência de Segurança Pública, agendada para a Caravana Anual, em São Luís.

Quem constrói junto

Parceiros presentes e ativos na articulação da Pré-Caravana:

  • Comissão Pastoral da Terra – CPP
  • Diocese de Brejo
  • IFMA – Instituto Federal do Maranhão – Campus Araioses
  • Fórum em Defesa da Vida do Baixo Parnaíba Maranhense
  • Paróquia Nossa Senhora da Conceição – Araioses
  • Sindicato de Servidores Públicos Municipais de Araioses (SINDSEPMA)
  • Sindicato de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Araioses (STTR)
  • Sociedade Maranhense de Direitos Humanos
  • Comunidades: Santa Rosa, Paramirim, Pau ferrado, Baixão dos Loteros, Baixa Grande do Meio e Quilombo Bom Sucesso.

Essas organizações e comunidades fortaleceram a mobilização e realização da Pré-Caravana e seguem construindo, em coletividade, o caminho até a Caravana Regional. 

Abrindo caminhos

A Pré-Caravana não encerrou nada: ela abriu caminhos. Foi um importante passo, que integra um caminho maior, que passa pela Carava Caravana Anual de Direitos Humanos, ainda em dezembro e se amplia e deságua em março de 2026, com a Caravana Regional de Direitos Humanos do Baixo Parnaíba Maranhense.

Entre memória, afeto e resistência, a mensagem que que ficou firme no coração das pessoas presentes, também foi entoada no canto, que é famoso no cancioneiro das Comunidades Eclesiais de Base:

Irá Chegar
Um novo dia,
Um novo céu,
Uma nova terra,
Um novo mar.
E nesse dia,
Os oprimidos
Numa só voz
A liberdade irão cantar!

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