Estiva do Nazário recebe edição que homenageou Seu Vassoura, importante liderança da região
Estrada de terra batida, vegetação nativa, rios e a imponência dos juçarais contornam a paisagem que leva até Estiva do Nazário. A cerca de duas horas da sede do município de Morros, o povoado localizado no município de Cachoeira Grande, possui 12 famílias que vivem da agricultura familiar, do extrativismo artesanal e da criação de pequenos animais. Entre os dias 23 e 26 de julho, porém, a pacata rotina da comunidade deu lugar ao movimento da resistência camponesa com a realização do 42º Encontro de Lavradores e Lavradoras da Região do Munim.

Organizado pela Associação Cristã do Meio Rural da Região do Munim (ACR-Munim), pela Associação de Agricultores e Agricultoras Agroextrativistas do povoado Estiva do Nazário e pela Paróquia Nossa Senhora Aparecida do Munim, de Morros, o encontro contou ainda com o apoio da Associação Agroecológica Tijupá e da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH). Sob o tema “Direito à Terra e democracia para o bem viver” e o lema “60 anos das CEBs, semeando a vida”, mais de 100 participantes vindos de Morros, Cachoeira Grande, Icatu, Santa Rita e São Luís foram acolhidos em um verdadeiro exercício de solidariedade comunitária.
Partilha do pão, do teto e do saber
Sediar um encontro dessa dimensão em um povoado com pouco mais de uma dezena de casas exigiu um esforço logístico pautado na cooperação. Por meio do sistema de hospedagem solidária, os moradores abriram as portas de suas casas para abrigar os visitantes. As refeições foram preparadas coletivamente em um mutirão de mulheres e homens, reforçando a premissa de um encontro feito “do povo para o povo”.
Na abertura dos trabalhos, o coordenador da ACR-Munim, Rui Carlos, deu as boas-vindas às pessoas ressaltando a importância das práticas de boa convivência e do cuidado mútuo, tanto entre os participantes quanto com o território que acolhia o encontro. Todas as manhãs, a alvorada e as atividades eram despertadas pelas batucadas e cantorias do Grupo Mucura, grupo percussivo popular do município de Icatu. As canções entoadas nas alvoradas e ao longo dos dias falavam da união dos povos, do amor à terra e de uma religiosidade libertadora, que enxerga Deus e Jesus Cristo como figuras simples e camponesas, alinhadas à premissa de que “a igreja está onde o povo está”.

O legado e a presença de Seu Vassoura
A atividade foi profundamente marcada pela memória de Raimundo Saminezes, o “Seu Vassoura”. Liderança comunitária do povoado Água Branca, ex-coordenador da ACR-Munim, integrante das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e um dos criadores do encontro, ainda na década de 1980, Seu Vassoura faleceu aos 84 anos, em abril de 2026.
A cerimônia de abertura homenageou o líder com o levantamento de um mastro adornado com uma bandeira estampando seu rosto e os dizeres “Vassoura, presente!”. Erguido por seus filhos e filhas, o mastro tornou-se o centro de uma bonita roda de tambor de crioula, manifestação cultural da qual ele era um entusiasta.
Homenagem a uma liderança histórica
Seu Vassoura foi liderança do povoado Água Branca em Cachoeira Grande, grande mobilizador social da área rural e um aguerrido combatente em prol do trabalhador rural na região do Munim. Deixou um legado de persistência, fé libertadora, coletividade e amor ao próximo.
As homenagens a ele continuaram na noite do dia 24, sob a condução da ACR Jovem, em uma sessão de Cine Debate. No barracão principal do povoado, foram exibidos o vídeo-memória do 41º Encontro e um documentário sobre a trajetória de Seu Vassoura, com depoimentos de seus familiares e companheiros de luta. Em seguida, as pessoas presentes compartilharam memórias sobre o legado e os valores deixados por ele. O encerramento da noite contou com nova apresentação de tambor de crioula e uma animada quadrilha improvisada pelos próprios comunitários.
Conflitos agrários, cobrança por direitos e políticas públicas

Os momentos de reflexão estratégica e política ocuparam a parte central da programação no dia 24. A mesa de debate da manhã abordou a situação agrária nos territórios e o papel histórico das CEBs na organização comunitária. Casos emblemáticos da região foram apresentados, como o da Gleba Santa Cecília, onde famílias agricultoras aguardam a regularização fundiária para conquistarem a paz e a segurança em suas terras, livres das ameaças de despejo e das invasões praticadas por pretensos proprietários. A comunidade anfitriã também passa por processo semelhante.
Ainda na manhã de 24, os participantes discutiram as estratégias de proteção e resistência comunitária antes da mesa de encaminhamentos com os órgãos fundiários. A ausência de representantes do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) gerou críticas por parte dos lavradores. Por outro lado, o Instituto de Colonização e Terras do Maranhão (Iterma) enviou dois representantes para escutar as demandas dos povoados e dar encaminhamento aos processos de titulação.
No dia 25, a manhã começou com uma mesa dedicada a refletir sobre o projeto político necessário para o campo, reunindo vozes diversas de lideranças quilombolas, mulheres, pessoas com deficiência, jovens, trabalhadores rurais e membros da igreja, com o auxílio reflexivo da SMDH e da Tijupá. Na sequência, um estudo bíblico resgatou a trajetória de 60 anos de atuação das Comunidades Eclesiais de Base na formação de consciência crítica e social no meio rural.
Troca de saberes e o rito sagrado das sementes crioulas
A tarde do dia 25 ofereceu espaço para a prática em oficinas temáticas que abordaram temas como economia solidária e criativa, produção de remédios caseiros, fabricação de sabão artesanal, técnicas para proteção de roçados e conjuntura política com foco na campanha por um Congresso amigo do povo para 2026. Os conhecimentos adquiridos foram posteriormente socializados em uma grande plenária de partilha.
O encerramento do encontro, no dia 26, celebrou a conexão direta da comunidade com a terra. Cumprindo um rito sagrado realizado ininterruptamente desde 2004, lavradores e lavradoras reuniram-se para a troca de sementes crioulas. A prática garante a preservação e a circulação de espécies nativas de milho, feijão e outras culturas, mantendo-as protegidas dos processos industriais e da contaminação por agrotóxicos.
Após a derrubada do mastro de Seu Vassoura e a celebração de uma missa, os participantes iniciaram o caminho de volta para suas casas, levando consigo o compromisso renovado de defender o território, a vida e a memória daqueles que tombaram pelo direito de cultivar a terra.