
Entre encontros, mística e articulação política, Barreirinhas abrigou três dias de fortalecimento comunitário e defesa do território.
Entre dunas que desenham o horizonte e as águas sinuosas do rio Preguiças, Barreirinhas abrigou nos dias 27 a 29 de agosto, um movimento contínuo que se manifesta a partir de encontros, reuniões e articulações permanentes na região: a Caravana Regional de Direitos Humanos, uma iniciativa proposta pela Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH), mas realizada pelo Fórum em Defesa da Vida do Baixo Parnaíba Maranhense e coordenada por muitas mãos locais.
A Caravana mostrou-se, mais uma vez, um território vivo de encontros e, sobretudo, de um profundo acolhimento. Nos bastidores da dinâmica diária, a solidariedade entre os caravaneiros falou mais alto: cada detalhe foi pensado coletivamente para garantir que todos estivessem bem alojados e com condições de participar das atividades, transformando o cuidado mútuo na primeira grande lição prática de direitos humanos.
O passo inicial: ocupando a tribuna e semeando a escuta
O pulsar da Caravana começou antes mesmo de sua abertura oficial. No dia 25 de agosto, caravaneiros e lideranças ocuparam a Tribuna Livre da Câmara Municipal de Barreirinhas. Diante dos vereadores, apresentaram as pautas centrais do movimento, exigindo um compromisso real com a vida e os direitos fundamentais da população local.
A articulação encontrou solo fértil graças ao engajamento e à parceria firme das organizações da sociedade civil em Barreirinhas. A esse respeito, José Vale, representando a SMDH, fez questão de sublinhar a centralidade desse esforço conjunto:
“A importância do comprometimento e da participação ativa dos parceiros locais em Barreirinhas é o que dá sustentabilidade a este processo. A Caravana só acontece porque há pessoas e instituições na cidade que abraçam a causa e constroem o caminho junto com a gente,” pontuou Vale.
Com o apoio essencial de entidades como a Colônia dos(as) Pescadores(as), o Sinproesemma local, o Centro de Direitos Humanos de Barreirinhas (CDHB) e a Paróquia Nossa Senhora da Conceição, a caravana levou oficinas, rodas de diálogo, exibições de filmes, intercâmbios e formação sociopolítica, para o Centro Paroquial Nossa Senhora da Conceição, para a Casa Familiar Rural e para o Colégio CE Barreirinhas, espaços que gentilmente acolheram nossa programação.
Debates, ausências e a força do confronto de ideias
A programação foi densa e fincada na realidade concreta dos territórios. No Seminário sobre Grandes Projetos, Proteção e Eleições 2026, debateu-se o impacto voraz da mineração, do agronegócio e dos empreendimentos imobiliários sobre os modos de vida tradicionais, conectando a urgência da proteção popular com o próximo pleito eleitoral.
A ausência de representantes do ITERMA, do INCRA, da Secretaria de Segurança Pública e da Defensoria Pública do Estado e demais convidados para a Mesa Interinstitucional sobre Conflitos Fundiários e Socioambientais, expôs o silêncio institucional e desrespeito às demandas das comunidades tradicionais. Contudo, longe de esmorecer o ânimo coletivo, a cadeira vazia transformou-se em motor para a resistência, suscitando novas estratégias para ter suas pautas ouvidas por aqueles que deliberadamente escolhem calar.
Já a Oficina da Campanha “Congresso Amigo do Povo” mobilizou os(as) participantes para refletir sobre direitos humanos no contexto eleitoral, em torno de uma pergunta central: por que a região precisa eleger representantes genuinamente comprometidos com as pautas populares? A chuva de respostas sinalizou preocupações comuns entre os municípios do Baixo Parnaíba, com especial atenção à segurança pública, saúde, educação e às questões fundiárias.
32º Grito dos Excluídos e Excluídas ecoou em Barreirinhas e a cultura de resistência
O espírito do Grito dos Excluídos e Excluídas também se fez presente dentro da Caravana. Historicamente concebido como uma manifestação popular de caráter nacional que contrapõe os desfiles cívicos oficiais para pautar as reais feridas sociais do país, o Grito tem como tema permanente “Vida em primeiro lugar!”. Em sua 32ª edição, o movimento adotou o lema “Na defesa da terra, da paz e da moradia, erguemos a voz: Mulheres vivas e soberania!”, conectando-se profundamente com a essência da Caravana de Direitos Humanos.
Essa sintonia se fez natural e necessária porque ambas as iniciativas partem do mesmo lugar: denunciam o racismo ambiental, a voracidade dos grandes projetos sobre os territórios tradicionais e exigem a garantia intangível da vida plena, tendo o protagonismo das mulheres na guarda da terra e da soberania popular como o verdadeiro alicerce da democracia que se quer construir. Assim, o Grito dos Excluídos e Excluídas foi pautado em diversas atividades da programação da caravana, desde sua cerimônia de abertura ao seminário sobre grandes projetos.
Na trilha do que prega o próprio espírito do Grito dos Excluídos e Excluídas, a Caravana buscou enaltecer, celebrar e valorizar a cultura local de resistência, levando para sua noite cultural, no Paraíso do Caju, a força do Boi Brilho da Lua, do povoado quilombola Santa Cruz. O boi rural, com seu sotaque singular e composto por pessoas de todas as idades, com destaque para a presença vibrante das crianças, ensinou que a luta também precisa da pausa e do gozo da festa popular para seguir forte. Ver os pequenos como o presente e o futuro na preservação da tradição e da história daquele quilombo revelou caminhos vitais sobre como engajar as novas gerações. Essa urgência foi sintetizada nas reflexões de Marcelo da Conceição, do Centro de Direitos Humanos de Barreirinhas (CDHB), ao ponderar sobre os rumos da militância:
“Vimos muitos jovens presentes nesta caravana, assim como fomos às escolas sensibilizar as juventudes; precisamos fazer disso uma constância em nossas atividades, não só na caravana. Buscar as pessoas que estão à margem. Esse é o compromisso que também devemos levar,” destacou Marcelo.
O corpo a corpo da missão e a força das mulheres na agroecologia
A Caravana não se fez só nos auditórios e escolas, ela também desceu para o chão da comunidade. Na manhã de sábado (29), a Missão Popular no bairro Laranjeiras levou uma comitiva de caravaneiros de porta em porta, para a comunidade rural que fica a aproximadamente 15 minutos do centro de Barreirinhas. Conversando olho no olho, os caravaneiros dialogaram com os moradores sobre os direitos humanos a partir de suas vivências, da importância do voto consciente e da defesa intransigente dos direitos humanos.
“Essa experiência de ir nas comunidades, de fazer uma escuta além de falar, de conhecer as pessoas cara a cara, é o que nos dá o aprendizado real da luta,” reflete Albertino.
Nos espaços simultâneos de intercâmbio, a sabedoria popular deu o tom. Um dos pontos altos e mais sensíveis da programação foi o diálogo fecundo entre as regiões do Munim e do Baixo Parnaíba no campo da produção agroecológica.
“Esse intercâmbio promoveu uma troca profunda e tem força para criar laços mais firmes, sobretudo entre mulheres que mantêm seu sustento e bem viver com o plantio de hortaliças e com as artesanais feitas a partir de produtos naturais da biodiversidade local”, destacou Eliane Gentil, do Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Paulino Neves e articuladora da REPAM Brasil nos projetos sociais do Baixo Parnaíba.
Na roda sobre comunicação segura como estratégia de proteção, o conhecimento também circulou de forma horizontal, auxiliando as comunidades na atenção aos mecanismos digitais que são práticos no dia a dia, mas requerem cuidado com seu uso. Também evidenciou-se nessa troca que a comunicação não é e nem deve ser restrita ao uso de tecnologias digitais. Assim, estratégias analógicas e criativas que garantam a comunicação segura e inviolável também foram destacadas e enaltecidas na roda.
O combustível para seguir em luta
A sessão do Cine Direitos Humanos, que exibiu o documentário Zé Nedina, presente! e um episódio da série Defensoras e Defensores Vivos dedicado à comunidade Baixão dos Rocha também suscitou esperança nos(as) caravaneiros(as).
Após as exibições, a trajetória de Zé Nedina foi profundamente enaltecida; Maelson, do povoado Guarimã, compartilhou que, mesmo sem tê-lo conhecido em vida, sentiu-se imensamente inspirado pelo legado de coragem daquele que descreveu como “um homem que superou seus medos, não cedeu e morreu lutando por dias melhores”.
Logo em seguida, a realidade retratada na luta de Baixão dos Rocha tocou a liderança Domingas, do povoado Bom Princípio Fim. Emocionada, ela destacou como a frase “a gente não sabe viver em outro lugar” ecoou em seu próprio peito, refletindo o vínculo ancestral com seu território, que também enfrenta severos conflitos agrários. Ela afirmou que sai da caravana com a esperança renovada e que, embora o caminho seja árduo, a partilha dessas histórias alimenta a certeza de que a vitória é possível.
Na plenária de avaliação, o eco dos três dias revelou a profundidade da vivência. Para muitos, a Caravana funcionou como um revigoramento político e espiritual.
“A gente começou perguntando o que cada um trazia para cá, e a resposta foi fé, esperança e disposição. Estamos levando para os nossos municípios a certeza de que o que é mais urgente agora é o processo eleitoral: é eleger pessoas comprometidas com o povo,” destaca Antônio da Mata, da Casa Familiar Rural de Barreirinhas.
Do município de Brejo, a caravaneira Sebastiana resumiu o sentimento coletivo que define a essência da jornada:
“Estar aqui nos enche de força e coragem. Dá o impulso necessário para permanecer nessa luta que é permanente e nos dá ânimo para levar essa chama acesa de volta para a nossa comunidade.”
A missão da caravana foi concluída, mas o encerramento no sábado não soou como despedida, pelo contrário: firmou-se o compromisso de dar continuidade a um processo que teve sua culminância de 27 a 29 de agosto. Afirmou-se a decisão urgente e coletiva de fazer a mensagem da sensibilização eleitoral transbordar para além daqueles dias, ecoando em cada canto dos territórios. Precisamos contribuir nas eleições 2026 para a construção do Projeto Político que queremos, com democracia, direitos humanos e bem viver.